E agora que voltei à análise as associações me vem mais facilmente. É um portalzinho pro inferno que se abre, sabe? Precisa possuir certo gosto pelo macabro para apreciar. Mas sou fã do Poe, então está tudo certo.
Domingo, Maio 20, 2012
Terça-feira, Maio 15, 2012
Sábado, Abril 28, 2012
Estou escrevendo no telhado. Isto não é figurativo.
Meus pés se acomodam na concavidade das telhas.
À frente, luzes amarelas das casas e azuis das TVs ligadas.
Ao longe, a algazarra dos bares.
Um homem passa e me vê. Detém-se para observar a moça sentada no telhado.
Ela escreve em seu laptop, veste-se inteira de preto, seus cabelos são longos e castanhos.
É apenas uma moça no telhado. Ele se vai.
Uma mulher sai de casa e não me vê. Seu cachorro tampouco percebe que estou aqui.
O que estava escrevendo parei. Resolvi entrar no blog e desenhar este quadro.
Meus pés se acomodam na concavidade das telhas.
À frente, luzes amarelas das casas e azuis das TVs ligadas.
Ao longe, a algazarra dos bares.
Um homem passa e me vê. Detém-se para observar a moça sentada no telhado.
Ela escreve em seu laptop, veste-se inteira de preto, seus cabelos são longos e castanhos.
É apenas uma moça no telhado. Ele se vai.
Uma mulher sai de casa e não me vê. Seu cachorro tampouco percebe que estou aqui.
O que estava escrevendo parei. Resolvi entrar no blog e desenhar este quadro.
Peço silêncio e me incomoda se não sou atendida.
A busca pelo sublime é quieta e aterradora.
Vejo pessoas distraindo-se durante uma vida inteira.
Temo ser uma delas.
Quero dançar como Pina, de olhos fechados.
Ser sentimento em cada contração muscular.
Pintar a minha paisagem interna, externar meus verdes e cinzas.
Recusar-me à conformidade.
Desejo um amor que me faça uma cama de nuvens
e que mergulhe em mim
sem medo
do que irá encontrar.
A busca pelo sublime é quieta e aterradora.
Vejo pessoas distraindo-se durante uma vida inteira.
Temo ser uma delas.
Quero dançar como Pina, de olhos fechados.
Ser sentimento em cada contração muscular.
Pintar a minha paisagem interna, externar meus verdes e cinzas.
Recusar-me à conformidade.
Desejo um amor que me faça uma cama de nuvens
e que mergulhe em mim
sem medo
do que irá encontrar.
Quinta-feira, Abril 26, 2012
Despertei em conclusões: todas as escolhas são difíceis. Imagino o que seria se fossem outras as escolhas feitas. Não quero entristecer, mas toda perda significativa entristece, melancoliza.
Digo significativa e não "importante"ou "grande" pois o que me importa agora não é a perda em si, pois se bem auscultada a situação, a coisa perdida não ocupava tanto meus pensamentos. Mas havia profundo significado e desejo de porvir, e uma atenção quase meditativa a ela e a cada parte que a compunha.
Imagens vieram como nuvens e transformaram-se em outras, e foram levadas pelo sopro consciente que as julgaram inoportunas.
E a isso se misturou alívio e até alegria pelo provável bem-estar da coisa perdida. Deve-se confiar no seu objeto de atenção: eles julgam melhor do que nós.
No entanto, aqui estou, despejando palavras em uma plataforma inócua, temendo perder a coisa já perdida, tentando guardá-la em mim e nas minhas palavras e na minha boca, tentando fazer com que o sabor dure mais, sabendo já que não há mais nada em minha boca, nada toca a minha língua, ou molha os meus lábios.
Luto discreto, entrego-me a ele como quem ouve música, permito-lhe dançar em mim a sua valsa, permito-me ser dele por alguns instantes, alguns instantes infinitos.
Digo significativa e não "importante"ou "grande" pois o que me importa agora não é a perda em si, pois se bem auscultada a situação, a coisa perdida não ocupava tanto meus pensamentos. Mas havia profundo significado e desejo de porvir, e uma atenção quase meditativa a ela e a cada parte que a compunha.
Imagens vieram como nuvens e transformaram-se em outras, e foram levadas pelo sopro consciente que as julgaram inoportunas.
E a isso se misturou alívio e até alegria pelo provável bem-estar da coisa perdida. Deve-se confiar no seu objeto de atenção: eles julgam melhor do que nós.
No entanto, aqui estou, despejando palavras em uma plataforma inócua, temendo perder a coisa já perdida, tentando guardá-la em mim e nas minhas palavras e na minha boca, tentando fazer com que o sabor dure mais, sabendo já que não há mais nada em minha boca, nada toca a minha língua, ou molha os meus lábios.
Luto discreto, entrego-me a ele como quem ouve música, permito-lhe dançar em mim a sua valsa, permito-me ser dele por alguns instantes, alguns instantes infinitos.
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Sexta-feira, Abril 20, 2012
Abraçados, na porta de casa, o céu escuro, a luz do poste, o vazio deixado pelo amigo que se foi, as rugas, sentados na escada, a lágrima, as lágrimas, as outras casas, os olhos vermelhos, o cheiro conhecido, o carinho, a tristeza, o fim de um ciclo, o fim de uma vida, é preciso aceitar, é preciso enterrar nossa juventude e seguir em frente.
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Domingo, Abril 15, 2012
Escrevo maus poemas tristes, mas hoje despertei alegre. E coloquial.
Vontade de ligar pros amigos, um a um, pra desejar bom dia. E dizer que não se preocupem, que se arrisquem, que sejam leves.
A felicidade é tão simples e óbvia; prescinde até das boas palavras. E do bom intelecto.
Vontade de colocar todos os meus textos em um cajón furado e vê-los perder a tinta, e apreciar o movimento do fluido escuro com alegria.
Que importa? Estou contente.
Vontade de ligar pros amigos, um a um, pra desejar bom dia. E dizer que não se preocupem, que se arrisquem, que sejam leves.
A felicidade é tão simples e óbvia; prescinde até das boas palavras. E do bom intelecto.
Vontade de colocar todos os meus textos em um cajón furado e vê-los perder a tinta, e apreciar o movimento do fluido escuro com alegria.
Que importa? Estou contente.
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Sábado, Abril 14, 2012
Às vezes sinto falta de um passado que odiava. Como é possível? Mantenho-me resoluta, mas as ondas internas não são calmas todo o tempo. Há sempre a tempestade, e as ressacas. Ahí estoy, por irme y no.
O presente, ao invés de poupar-me, mostra-me como sou. Deposito meus textos mais preciosos em uma gaveta com furo. E não quero acreditar que isto seja um problema: é apenas um furo, um furo que talvez não deixe passar sequer uma folha de papel. Mas das folhas de papel escorre um líquido que o atravessa, e no dia seguinte o papel está branco. A tinta se foi, escorregou.
Não é possível culpar a gaveta. Nem exigir-lhe nada. Nem perguntar-lhe de seu silêncio. Nem contar-lhe o que sente.
Tampouco mostrar-lhe o livro do Shklovsky ou pedir-lhe que me leia um verso do Neruda.
O presente, ao invés de poupar-me, mostra-me como sou. Deposito meus textos mais preciosos em uma gaveta com furo. E não quero acreditar que isto seja um problema: é apenas um furo, um furo que talvez não deixe passar sequer uma folha de papel. Mas das folhas de papel escorre um líquido que o atravessa, e no dia seguinte o papel está branco. A tinta se foi, escorregou.
Não é possível culpar a gaveta. Nem exigir-lhe nada. Nem perguntar-lhe de seu silêncio. Nem contar-lhe o que sente.
Tampouco mostrar-lhe o livro do Shklovsky ou pedir-lhe que me leia um verso do Neruda.
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Terça-feira, Abril 10, 2012
Não sou ator, sou um santo.
Calam-se meus milagres à espera do vento.
A língua do oceano os levará de volta às profundezas e os cuspirá à terra, resolutos.
Nada mais são do que a verdade do disfarce e o seu contrário.
Mas sou um santo ator, dizem-me.
Costuram-me a barriga para que não lhes escapem os ventos.
(Sim, aqueles.)
Vivem entre o cinza e o verde, ou talvez entre outras cores quaisquer.
Que me importa? Sou o ator santo; nada me é necessário.
Transcorro viscoso na presença do meu público fiel.
Embuste que não sei ser, apenas agradeço; mostro os dentes prateados.
Nenhuma criança chora.
Desaprendo a andar.
Não sou santo, nem ator, nem alguém, nem nada.
Calam-se meus milagres à espera do vento.
A língua do oceano os levará de volta às profundezas e os cuspirá à terra, resolutos.
Nada mais são do que a verdade do disfarce e o seu contrário.
Mas sou um santo ator, dizem-me.
Costuram-me a barriga para que não lhes escapem os ventos.
(Sim, aqueles.)
Vivem entre o cinza e o verde, ou talvez entre outras cores quaisquer.
Que me importa? Sou o ator santo; nada me é necessário.
Transcorro viscoso na presença do meu público fiel.
Embuste que não sei ser, apenas agradeço; mostro os dentes prateados.
Nenhuma criança chora.
Desaprendo a andar.
Não sou santo, nem ator, nem alguém, nem nada.
Quinta-feira, Abril 05, 2012
Limpeza (para novo inquilino)
Um cadáver dentro da sala se levanta e parte
As portas de uma casa há muito fechadas
abrem-se
para a brisa
do novo
o cheiro do novo
o som do novo
O vento desliza sobre móveis
entranhas
Sopra como quem acende uma fogueira
Joga ao ar o pó da devoção à morte
modorrenta lenta inútil
Portas e janelas se escancaram para
enquadrar o céu
Lá fora aqui dentro
tudo se move
Quarta-feira, Março 07, 2012
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